Défice de atenção

Posted by Melita on janeiro 31st, 2008

Estes versos de JACQUES PRÉVERT parecem descrever crianças com défice de atenção…ou seriam crianças normais?

Défice de atenção

PÁGINA DE ESCRITA

Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis…
Repitam! Diz o professor
Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis.
Mas eis que o pássaro da poesia
passa no céu
a criança vê-o
a criança ouve-o
a criança chama-o:
Salva-me
brinca comigo
pássaro!
Então o pássaro desce
e brinca com a criança
Dois e dois quatro…
Repitam! Diz o professor
e a criança brinca
e o pássaro brinca com ela…
Quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis
e dezasseis e dezasseis quanto é que faz?
Dezasseis e dezasseis não faz nada
e sobretudo não faz trinta e dois
e de qualquer maneira
eles vão-se embora.
A criança escondeu o pássaro
na sua carteira
e todas as crianças
ouvem a música
e oito e oito por sua vez também se vão
e quatro e quatro e dois e dois
por sua vez desaparecem
e um e um não fazem nem um nem dois
um e um também se vão dali.
E o pássaro da poesia brinca
e a criança canta
e o professor grita:
deixem de fazer palhaçadas!
Mas todas as outras crianças
escutam a música
e as paredes da sala
desmoronam-se tranquilamente.
E os vidros voltam a ser areia
a tinta volta a ser água
as carteiras voltam a ser árvores
o giz volta ser falésia
e a caneta volta a ser pássaro.

Défice de atenção

Tradução de José Fanha

O significado do número 8… (Associado á Quinta da Regaleira)

Posted by Melita on janeiro 30th, 2008

Se o “Sete” é o número perfeito, que na representação geométrica pode ser simbolizado por um triângulo sob o quadrado (espírito anima a matéria): Esta representação, aparece logo no inicio da vida, quando as crianças fazem, os seus primeiros desenhos de construções…de casas ou pirâmedes, etc. Sete é o número que inspira e eleva o ser na sua qualidade maior.Seus valores resumidos são:
Perfeição, Concentração, Dharana, Integridade, Intuitivo, Individualista, Mental Superior, Ser, Especulativo, Meditativo, Inteligente, Científico, Espiritual, Superior…
O número 7 representa Atmãm, o dono da carruagem, o carro de Ezequiel, a Mercavah Celeste, o Ken dos Taoistas, a Montanha, o rosto humano feito a “imagem e semelhança de Deus”. Sê o número 7 for representado por um X, temos então o nome cabalístico de Zain, que na realização deste número, representará o homem que uniu o Mundo Divino com o Mundo Humano. Daí a montanha ser o palco da realização espiritual de vários seres que vieram à terra cumprir esta missão, que como eremitas, Manus, Avataras, caminhantes, peregrinos, mostraram possuir a luz do conhecimento e da sabedoria das idades: “Senhores de si mesmo e de seu próprio destino”.

<!–[if gte vml 1]> <![endif]–><!–[if !vml]–><!–[endif]–>O significado do número 8...  (Associado á Quinta da Regaleira)
O número 8 representa o que permanece em equilíbrio: A Justiça !
Na mitologia egípcia, Anubis é a representação máxima do número 8. Anubis (saturno) faz o julgamento dos mortos através de uma enorme balança, onde, num dos pratos, é colocado o coração do iniciado, do outro, encontra-se uma pena. Este simbolismo, indica, para o bom iniciado, que o coração não pode pessar mais que uma pena, daí a importância da pureza em nossa evolução. Compreende-se que a evolução do homem (quadrado) se dá no momento em que ele completa 28 anos (4×7=28). Observamos então o mistério do número 28 (4×7) = 2 (polaridade-equilíbrio), 8 (justiça-julgamento) que, curiosamente, é o ciclo de saturno. No aspecto da evolução da alma, 2 representa a polaridade entre emoção e a mente (alma), 8, a consciência (espírito) que julga estes veículos, etc. O oito representa o dia da ressurreição do Senhor e também a futura ressurreição de todos os santos . Daí que nas indicações junto ao título do salmo 6 conste: “Para o oitavo”. O número oito - ensina Agostinho - simboliza o mundo futuro.Pois o oito sucede o sete, número que representa o tempo.Após a mutabilidade desta vida (simbolizada pelo sete) o oitavo dia é o do juízo. Daí, conclui Agostinho, o título do salmo 6: “Para o oitavo”, onde se diz: “Não me repreendas, Senhor, em tua indignação; em teu furor não me castigues” (Agostinho, Sermão 260 C,3).

Os Mistérios da “Quinta Da Regaleira”…

Posted by Melita on janeiro 29th, 2008

Os Mistérios da Quinta Da Regaleira...

Outro local onde se descobriram túneis e passagens plutónicas foi na famosa Quinta da Torre, também conhecida por Quinta da Regaleira, situada na subida para Seteais.

Esta propriedade, adquirida em 1893 pelo dr. António Augusto de Carvalho Monteiro, a quem deram a alcunha de Monteiro dos Milhões devido à sua enorme fortuna pessoal, viria a provar a grande amplitude da rede de subterrâneos da Serra de Sintra quando o seu não menos rico e enigmático proprietário resolveu mandar abrir duas passagens do subsolo para ligar o palácio à capela e à casa do guarda. Talvez sem surpresa do milionário, estas obras foram desembocar numa rede de túneis antigos, surgindo numa das grutas assim postas a descoberto pequena imagem de pedra cor-de-rosa, representando um ser com aspecto feminino mas pisando um animal parecido com o mitológico dragão, só que exibindo certas formas humanas. Monteiro dos Milhões veio a falecer oito anos após se terem concluído as obras na quinta e no palácio, as quais levaram dezanove anos a fazer. Se tivermos em conta o que a Kaballah diz acerca do número oito seremos forçados a pensar que o mistério se adensa.

Considerado como o último dos alquimistas portugueses, o dr. António Augusto de Carvalho Monteiro seguiu, igualmente, a insólita tradição de fazer buracos profundos na Montanha da Lua pois, além das diversas galerias da sua autoria, ainda detectáveis na Quinta da Regaleira, ordenou a escavação de um “poço” com 30 metros de profundidade e 6 de largura.

Pelas paredes deste “poço”, cuja possibilidade de servir para captar água é posta de parte por quem nele penetra, desce uma escada em caracol com 139 degraus e apoiada em colunas, deparando-se no fundo com mais passagens subterrâneas reforçando a ideia de que tanto buraco não teria sido aberto por acaso…


Ontem ainda…

Posted by Melita on janeiro 28th, 2008

<a href="http://youtube.com/watch?v=UzBncolQjP0">http://youtube.com/watch?v=UzBncolQjP0</a>

Ontem ainda... Ontem ainda…

eu tinha vinte anos,

acariciava o tempo,

e brincava de viver,

como se brinca de namorar,

e vivia a noite,

sem considerar meus dias,

que escorriam no tempo!

Fiz tantos projetos, que ficaram no ar…

alimentei tantas esperanças, que bateram asas,

que permaneço perdido, sem saber aonde ir,

os olhos procurando o Céu,

mas, o coração posto na Terra;

Ontem ainda…

eu tinha vinte anos,

desperdiçava o tempo,

acreditando que o fazia parar,

e para retê-lo, e até ultrapassá-lo,

só fiz correr e me extenuar,

ignorando o passado,

que conduz ao futuro,

precedia da palavra “eu” qualquer conversação,

e opinava que eu queria o melhor,

por criticar o mundo com desenvoltura;

Ontem ainda…

eu tinha vinte anos,

mas, perdi meu tempo

a cometer loucuras,

o que não me deixa, no fundo,

nada de realmente concreto,

além de algumas rugas na fronte e o medo do tédio,

porque meus amores morreram antes de existir,

meus amigos partiram, e não mais retornarão,

por minha culpa, criei o vazio em torno a mim,

e gastei minha vida e meus anos de juventude,

do melhor e do pior,

descartando o melhor,

imobilizei meus sorrisos e congelei meus choros,

onde estão, agora, meus vinte anos?

(Charles Aznavour)

Quem não Ama a Solidão, não Ama a Liberdade …

Posted by Melita on janeiro 28th, 2008

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas. Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas acções, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.

A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.

Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogéneos causa um efeito incómodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.


Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em óptima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina.

Arthur Schopenhauer, in ‘Aforismos para a Sabedoria de Vida’

Todo dia é menos um dia…

Posted by Melita on janeiro 28th, 2008

Todo dia é menos um dia… roquet

Todo dia é menos um dia;
menos um dia para ser feliz;
é menos um dia para dar e receber;
é menos um dia para amar e ser amado;
é menos um dia para ouvir e, principalmente, calar!

Sim, porque calando nem sempre quer dizer
que concordamos com o que ouvimos ou lemos,
mas estamos dando a outrem a chance de pensar,
reflectir, saber o que falou ou escreveu.

Saber ouvir é um raro dom, reconheçamos.
Mas saber calar, mais raro ainda.
E como humanos estamos sujeitos a errar.
E nosso erro mais primário, é não saber
Ouvir e calar!

Todo dia é menos um dia para dar um sorriso,
Muitas vezes alguém precisa, apenas de um sorriso
para sentir um pouco de felicidade!

Todo dia é menos um dia para dizer:
- Desculpe, eu errei!
Para dizer:
- Perdoe-me por favor, fui injusto!

Todo dia é menos um dia;
Para voltarmos sobre os nossos passos.
De repente descobrimos que estamos muito longe
E já não há mais como encontrar
onde pisamos quando íamos.
Já não conseguiremos distinguir nossos passos
de tantos outros que vieram depois dos nossos.

E se esse dia chega, por mais que voltemos;
estaremos seguindo um caminho, que jamais
nos trará ao ponto de partida.

Por isso use cada dia com sabedoria.
Ouça e cale se não se sentir bem;
Leia e deixe de lado, outra hora você vai conseguir
interpretar melhor e saber o que quis ser dito.

(Carlos Drumond de Andrade)

O SOSSEGO DA LUZ

Posted by Melita on janeiro 27th, 2008

O SOSSEGO DA LUZ

O SOSSEGO DA LUZ
METAMORFOSE E MASSACRE

(fragmentos)

Os dedos demoram-se na sombra.

Suspendem-se no sangue poeiras germinantes, turvos
fluidos, fios translúcidos de sal e deslumbramento
que detêm o silêncio e estancam a luz.

Desvenda o coração o que o coração oculta.

A sombra revela o significado oculto desse ritual que o fogo
acumula no obscuro sinal de uma ruína sem nome.

Chamam-lhe escrita, outros preferem nomeá-la como infinitoO SOSSEGO DA LUZ
exercício de adivinhação, dizem-na outros arte,
enigma redentor a que se entregam os que crescem
para o abismo e perturbam as trevas.

Recompensa ou castigo, eis o que obstina.

Por essas horas as mulheres arrastam pelas praias o espesso
manto da escuridão, convocam os mortos às encruzilhadas,
libertam trémulas luzes de obscuros papéis e sombras
calcinadas.

Corre implacável o curso da impaciência sob a ofendida
serenidade do poema

O Sossego da Luz

(Amadeu Batista)

O Meu conto…

Posted by Melita on janeiro 27th, 2008

Maria vivia feliz. João era mais complicado que a Maria. Vivia seguindo-a, porque eram apenas duas crianças naquela aldeia, situada no fim do mundo. Maria corria, saltava. João assistia aos entusiasmos de Maria sem se contagiar… Maria gostava de correr pelos campos, caminhar no meio das árvores, seguir os peixes ao longo do riacho. João seguia… Uma tarde como tantas outras, Maria andava pelo campo. Apetecia-lhe andar. Nesse dia andou mais que o habitual. João clamava constantemente para regressarem, pois fazia-se tarde. A noite chegava depressa. Os caminhos de terra batida por onde andavam, apenas seriam iluminados, se a noite, com a sua grandeza…deixasse, que a luz da lua espreitasse aqueles campos lindos e cheios de cor… Maria ao avistar uma árvore grande e frondosa, correu para ela. Estava cansada, haviam andado mais que o normal…Trepou a árvore e deitou-se num dos ramos mais planos. João…sentou-se no chão e encostou as costas ao tronco da árvore…Ia murmurando…”Maria, faz-se tarde, temos de voltar…” Maria, não o ouvia e olhando o azul do céu, as nuvens brancas que saltitavam, também elas pelos céus acabou adormecendo… O vento beijava-lhe o rosto suavemente, os raios do sol já fracos, aqueciam-lhe o corpo, as folhas cantavam uma melodia de embalar…o braço forte da árvore protegia-a, abraçava-a como se estivesse num colo celestial… Maria sonhou…sonhou que estava tão bem ali, que tudo estava perfeito! Sonhou que poderia ser um ramo daquela árvore…que maravilhoso seria! -Não, Não não poderia ser um ramo da árvore porque..SERIA UM PRISÂO! Como poderia ter desejado isso??? Estava assustada. A ideia de ser ela também um ramo daquela árvore, estava a apavorá-la. Seria horrível pensar que não poderia saltar mais, nem correr pelos campos, nem abraçar os animais, nem rir, nem chorar…nem gritar ao vento o quanto era feliz ali. No meio de tanto pensamento…a árvore que a abraçava…parecia estar a responde-lhe docemente…- “Não Maria…Não seria uma prisão…SERIA sim, UMA ADOPÇÂO! Maria jurava que árvore havia falado…- UMA ADOPÇÂO???Na realidade era uma adopção… que grande ensinamento iria levar naquele dia para a sua vida…estava fascinada com o que acontecera. A Capacidade de incluir os outros no nosso meio, sem olhar ás diferenças….é o VERDADEIRO Significado da palavra adopção…teria de contar a todos! Afinal adopção não é só para as crianças infelizes…A ADOPÇÂO é muito mais que isso; É AMOR incondicional; É ACEITAR de braços abertos todos os que chegam a nós…é nunca excluir ninguém, mesmo que seja diferente…A felicidade estava espelhada no rosto de Maria… Havia aprendido o significado Universal da Palavra ADOPÇÂO! Abanou-o e correu para casa feliz, precisava de contar que o mundo é mais do que aquilo que vemos…”O mundo é MARAVILHOSO! VIVER É ADOPTAR, em casa, na rua, na escola, no trabalho, nos transportes …É Adoptar em cada segundo que vivemos…quem estestiver ali, mesmo ao nosso lado…seja quem for “A Vida é a troca de adoptar e deixar que nos adoptem também..Havia aprendido o significado Universal da Palavra ADOPÇÂO… Escrevi este conto para ti…Adoptei-te! ;) melita

 

O Meu conto… ad

Nazismo e eutanásia

Posted by Melita on janeiro 26th, 2008

Um caso paradigmático das consequências da mentalidade eutanásica, encontramo-lo na época do nazismo. Os abundantes programas de eutanásia naquela época não foram simples resultado de um fanatismo repentino, mas antes a culminação de um movimento intelectual iniciado nos anos vinte com a publicação de “A destruição da vida destituída de valor”, do psiquiatra Alfred Hoche e do jurista Karl Binding. Estes autores desenvolveram a tese de que há seres humanos sem qualquer valor vital e preconizaram a supressão dos que não pudessem curar-se; encareceram a carga económica que representam estes pacientes e invocaram as vantagens da sua eliminação. Aquela publicação “influenciou, ou pelo menos contribuiu para cristalizar o pensamento de toda uma geração” (1). Por isso, não é arriscado afirmar que muitas das atrocidades dos nazis tiveram a sua origem teórica nas obras daqueles que especularam sobre a “vida sem qualquer valor”. Assim, em 1933, a “Lei para a prevenção das doenças hereditárias” justificou a esterilização obrigatória para prevenir a propagação de taras como a imbecilidade, a loucura, a epilepsia, a surdez, a cegueira ou o alcoolismo hereditários. Um dos promotores do programa, o Dr. Arthur Guett, Director do Departamento Nacional de Higiene, tranquilizou a opinião pública, afirmando que “se tinham tomado as medidas necessárias para prevenir qualquer abuso” (2). E no estalar da II Guerra Mundial, em 1939, esta Lei tinha causado a esterilização de mais de 375.000 pessoas, incluindo aqueles que tinham perdido membros em acidentes de trabalho. “A lei da esterilização obrigatória foi somente o começo dos assassinatos em massa de pacientes psiquiátricos” (3). Um certo número de médicos alemães (e também de outros países) daquela época foram fortemente influenciados por argumentos utilitaristas, que rejeitavam qualquer conceito ético que impusesse valores absolutos e aceitavam a doutrina de que o controle da vida é uma função da sociedade, a qual deve julgar e actuar apenas com base em factores como a explosão demográfica e as necessidades sócio-económicas da comunidade. A difusão destas ideias na classe médica e na opinião pública em geral foi uma das causas remotas que determinaram a morte não só de milhões de judeus e eslavos, mas também de muitos alemães com deficiências físicas ou mentais. Em 1939, a Alemanha tinha 300.000 doentes mentais; em 1946, viviam só 46.000; muitos dos restantes tinham sido assassinados, com eufemismos como “morte misericordiosa”, “morte por compaixão”, “ajuda para os agonizantes”, “destruição da vida destituída de valor” etc. (4). O Presidente do Conselho para os Julgamentos de Nüremberg, Dr. Leo Alexander, afirmou que “o início foi somente uma subtil mudança de ênfase na atitude dos médicos. Tudo começou com a aceitação da atitude básica do movimento de eutanásia: existem vida ou vidas não dignas de ser vividas. Esta atitude, nas suas primeiras fases, referia-se apenas aos doentes crónicos, desenganados ou muito graves. Gradualmente, a esfera dos que deviam ser incluídos nesta categoria foi-se ampliando para compreender, primeiro, os socialmente não produtivos, os ideologicamente não alinhados, os não desejados racialmente e, por fim, todos os não germanos”

(5). (1) WERTHAM, F.,- A sign for Cain (Warner Paperback Librarv, New York, 1969) p. 159. (2) Cfr. GUETT, A., Population Policy, em “Germano Speaks” (Londres, 1938) p. 53. (3) WERTHAM, F., o.c. p. 159. (4) WERTHAM, F., o.c. p. 247. (5) LA CHAT, M., Utilitarian Reasoning in Nazi Medical Policy: Some Preliminary Invesiigations, em “Linacre Quarterly”, vol. 42, n.° 1, Fevereiro de 1975, p. 19. Fernando Monge, Eutanásia, Edições Prumo, 1991

E tu… quem és?

Posted by Melita on janeiro 26th, 2008

Pode parecer-nos uma pergunta despropositada e sem sentido. Curiosamente, a resposta não se satisfaz com um simples: “Chamo-me José Martins Botelho, barbeiro de profissão, e para os amigos Zé Navalhas”, e acrescentar o tradicional “às suas ordens e às de Deus”. A pergunta é muito mais profunda e também não basta a saída rápida e “filosófica”: “Eu sou eu (e as minhas circunstâncias)”. “E tu, quem és?” é uma pergunta de muita importância e transcendência. Supõe um atento exame sobre si mesmo, sobre as próprias aptidões e deficiências.

Para qualquer evento que se queira levar a cabo seriamente na vida (isto é, para as coisas que valem e que te interessam) é preciso perguntar-se a si próprio acerca dos meios de que se dispõem para conseguir o fim. Em primeiro lugar, logicamente, é preciso saber em que situação te encontras. Conhecer-te do “A” ao “Z”: as tuas reacções, os teus gostos, as tuas tendências, as tuas inclinações, o teu modo de pensar.

“Conhece-te a ti mesmo” era para os gregos da Antiguidade a máxima sabedoria, a pedra angular para a construção do homem íntegro. Verdadeiramente, quem quer que seja o autor desta máxima, escrita no templo de Delfos, acertou em cheio.

Seguindo com estes gregos de outras eras, apresento-te resumidamente o testemunho de um dos seus personagens favoritos no “cinema” do seu tempo, que era o teatro. Trata-se de Edipo.

Edipo é rei de Tebas. É quem mata a esfinge e também o homem desgraçado que mata o seu pai, partilha o leito com a sua mãe sem o saber e faz cair sobre si a sua própria maldição. O herói trágico por excelência.

No início da obra mais célebre de Sófocles, Edipo é-nos apresentado como rei e, ao mesmo tempo, pai preocupado pela peste que açoita o seu povo. Partilha a sua dor, mas não se conforma com derramar um pranto estéril. Procura os meios para encontrar a solução para os males de Tebas. Edipo é um homem coerente que consegue realizações efectivas e não se deixa apanhar na selva dos “quereria”, “gostaria de”, “preocupa-me”. O seu cunhado Creonte regressa do oráculo de Delfos com a solução: desterrar o assassino de Layo (antigo rei de Tebas e esposo de Yocasta). Mas quem era tal homem?

Depois de interrogar o adivinho Tiresias e um mensageiro de Corinto, Edipo descobre com a maior das angústias que ele é o assassino de Layo, seu pai, e que vive em trato incestuoso com a sua mãe. Quis saber a sua origem a todo o custo e pagou caro, mas chegou a conhecer-se tal como era.

Não é de estranhar que o fim de Edipo fosse trágico. Desesperado, depois de encontrar a sua esposa e mãe enforcada, priva-se voluntariamente dos olhos, cravando neles dois broches da sua veste. E semelhante desenlace leva-nos a perguntar o que é que teria sido melhor para Edipo: se ignorância feliz, ou sabedoria desgraçada. Nos nossos dias são poucos os homens que arriscam a comodidade da vida que levam para descobrirem a verdade acerca de si próprios.

A história de Edipo é um caso limite. É uma tragédia, portanto uma ficção. Mas a lição é clara: é importante conhecer-se a si mesmo. É mais perigosa uma vida de sonhos que, ao fim e ao cabo, não é mais que um engano que pode conduzir-nos a uma vida que não passa de uma existência que é uma farsa. Ele, ao conhecer-se, entrou em desespero. Mas andando o mesmo caminho até à verdade, porque não concluir com um belo final? Podemos realizar grandes coisas ao longo da nossa vida, porque saberemos quem somos, como funcionamos, quanto podemos dar. Conhecermo-nos a fundo, é o prelúdio para toda a vida que deseje viver-se em plenitude.

( Vicente D. Yanes - Jóvenes: 16 de Junho de 2003) - tradução, para a Aldeia, de Eduardo Rocha


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