
O funcionamento das centrais não é hoje problema, uma vez que a nova geração de reactores tem padrões de segurança muito rigorosos. A desmontagem das centrais é complexa, morosa e cara, mas no mundo ocidental segue procedimentos de segurança muito apertados. A dificuldade principal da energia nuclear convencional relaciona-se com os lixos, constituídos por elementos pesados, activados na operaçãodo reactor, que levam milhares de anos a perder a radioactividade. Apesar de todas as dificuldades, a energia nuclear é hoje responsável pela produção de cerca de 15 por cento da energia gasta anualmente na Terra. Émuito provável que o cumprimento do Protocolo de Quioto obrigue a recorrer à energia nuclear de fissão. Muitos países, como o Reino Unido, começam a rever os seus planos energéticos, relançando o debate sobre a energia nuclear. Esta opção deve ser motivada por critérios político-económicos que conduzam a uma política energética globalmente sustentável e assegurem a segurança das pessoas.
Os problemas da energia nuclear por fissão serão, um dia, resolvidos com as centrais de fusão, que são intrinsecamente seguras.
A quantidade de combustível no interior do reactor é muito pequena e, em caso de acidente, as reacções podem ser paradas quase instantaneamente. Não há transporte de reagente radioactivo (trítio) fora da
central, pois é produzido no reactor.
As centrais de fusão não produzem lixos radioactivos: os produtos das reacções são hélio (uma cinza inerte) e um neutrão. Este neutrão activa as paredes interiores da câmara do reactor e uma escolha criteriosa dos materiais permite que as paredes percam a radioactividade ao fim de 50 anos, em vez dos
milhares de anos dos lixos radioactivos das centrais de fissão.
Os combustíveis das centrais de fusão podem obter-se a partir da água e do lítio, dois elementos abundantes. Num reactor de fusão, dez gramas de deutério (que pode ser extraído de 500 litros de
água) e 15 gramas de trítio (produzido a partir de 30 gramas de lítio) produzirão electricidade suficiente para uma pessoa que viva num pais industrializado, ao longo de toda a vida. Assim, a fusão será uma fonte inesgotável de energia.
É o sonho da energia nuclear produzida por reacções de fusão nuclear que a Science reconheceu. Após o JET (tokamak europeu) ter realizado reacções controladas de fusão, o ITER provará a viabilidade científica e económica da energia de fusão. Irá produzir 500 MW de potência de fusão, durante 300 segundos, com um rendimento mínimo de 1000 por cento ou seja, libertando dez vezes mais energia do que a injectada no reactor. Depois desta demonstração, a humanidade estará a um passo do potencial da energia das estrelas: a transformação da energia de fusão em electricidade. ■
Este é o último de uma série de artigos de professores e investigadores do Instituto Superior Técnico, publicados aos domingos, para comemorar o Ano Internacional da Física
http://www.fisica.ist.utl.pt/docs/artjor/20060108.pdf
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