sexta-feira, setembro 03, 2010

ÁFRICA e as Ditaduras “DEMO-CRÁTICAS”

Há dois anos, após Robert Mugabe ter perdido um referendo em que tentou aumentar os seus poderes pessoais, tudo se precipitou. E precipitou-se porque já não era mais possível conciliar a sede de poder do Presidente com o desespero do homem da rua, empobrecido, doente e esfomeado.

 

Na verdade, apesar do Zimbabwe ter sido um dos países da África subsaariana a receber mais ajudas a fundo perdido das instâncias internacionais, o seu mau governo económico levou-o à ruína. Quando se tornou independente, o produto per capita do país era de 950 dólares – hoje é de 530. 70 por cento da população vive abaixo do limiar da pobreza enquanto os líderes têm contas na Suíça e se passeiam em Harare com Mercedes do último modelo. Meio milhão de pessoas necessitam de apoio alimentar de urgência. Outro meio milhão está refugiada na África do Sul.

 

Para Mugabe nada disto tem a ver com a sua ruinosa gestão: é antes culpa dos colonialistas britânicos e da minoria branca. É certo que os fazendeiros brancos ocupavam as melhores terras aráveis – mas enquanto as geriram o Zimbabwe era o celeiro da África Austral. Agora foram expulsos por hordas de “camponeses sem terra” inspirados pelo Presidente e liderados por alguém que gostava de ser conhecido por Hitler. O resultado é que o país passou de exportador de cereais a importador – e não tem dinheiro para pagar as importações.

 

É assim que chegamos às eleições de hoje, em que o velho tirano de 76 anos enfrenta alguém que, em condições normais, o derrotaria: Morgan Tsvangirai, do Movimento para a Mudança Democrática. Só que essas condições normais não existem. Só este ano já foram mortos 26 opositores políticos de Mugabe, ao mesmo tempo que foram criminalizadas as críticas ao Presidente e à sua polícia. O recenseamente eleitoral foi uma fraude, a distribuição das urnas feita de forma a privilegiar os feudos do partido no poder e quase não haverá observadores internacionais.

 

Infelizmente estas atitudes de Robert Mugabe contaram, durante muito tempo, com a complacência do Ocidente e de uma Europa que só agora decidiu aplicar sanções ao seu regime (sendo que, para nossa vergonha, Portugal foi dos países que mais resistiu à aprovação dessas tímidas sanções). Infelizmente – mais: preocupantemente – o comportamento de Mugabe tem vindo a ser apoiado pela Organização de Unidade Africana e pelos presidentes dos países vizinhos: Joaquim Chissano, de Moçambique, Benjamin Mkapa da Tanzânia e até Thabo Mbeki, da África do Sul, que agita o fantasma do neo-imperialismo.

 

Estamos pois perante mais uma tragédia africana. Criada por um ditador que, depois de ter atirado o seu povo para a miséria, opta pela fuga em frente e acusa os colonialistas de ontem pelos problemas que ele cria hoje.

http://dossiers.publico.pt/noticia.aspx?idCanal=347&id=71122

 

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