segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Os reis da comédia …Chavez, etc

Leio na “Folha de S. Paulo” que o meu querido Hugo Chávez tenciona convocar referendo em 2010 para estabelecer uma reeleição sem limite. Se os venezuelanos quiserem, Chávez ficará no poder, construindo a sua Venezuela Socialista e Bolivariana até morrer. Isso, claro, se Chávez morrer. Eu, pessoalmente, tenho as minhas dúvidas: um homem como Chávez está talhado para a eternidade e não excluo que, aos 150 ou 200 anos (contar com a medicina), o grande comandante estará animadamente a injurir George Bush 4 (bisneto do atual).

Mas se a morte vier, nenhum drama: bastará empalhar Chávez e ele continuará a governar em espírito. E com vantagens: um boneco, por definição, não contribui para os gastos de Estado em viagens e outros cortejos. É até provável que um Chávez empalhado seja mais sensato, e invulgarmente menos ridículo, do que o Chávez atual. Porque essa é a questão: não há nada mais ridículo do que um caudilho com tendências autoritárias. Nem vale a pena descer às “idéias” políticas do homem, que no essencial se resumem numa palavra: petróleo. Está tudo na estética da coisa. A estética é anterior a qualquer ética.

O caso, notem, não é exclusivo de Chávez. Muito menos da esquerda ou da direita. E qualquer leitor pode fazer uma experiência caseira: basta olhar para imagens de arquivo –de Hitler a Mugabe, de Mussolini a Idi Amin, sem esquecer os fabulosos irmãos Castro– e deixar que os olhos regressem à candura da infância. A infância é sábia. A infância não mente. E é impossível conter o riso perante os próceres: os gestos, as palavras. O vestuário. A boçalidade grandiloquente. E a inexplicável aceitação das massas, que, ao mínimo sinal do líder, deveriam simplesmente rir com a piada. Porque todos os ditadores têm piada.

Essa, aliás, é a marca distintiva da espécie. E talvez por isso ela esteja sempre tão interessada em reprimir qualquer manifestação de humor. Platão, na sua “República” ideal, procurava banir o teatro, considerado nocivo para a educação virtuosa dos homens? Platão sabia do que falava: a crítica social, sobretudo quando embrulhada no humor de Aristófanes, podia ser a desagregação da sua “utopia”. Os herdeiros de Platão seguiram-lhe os passos, fuzilando ou aprisionando os autores de todas as piadas (lembrar Mandelstam e sua paródia de Stálin). O que não significa necessariamente que as piadas não se tenham espalhado.

Nos antigos regimes comunistas do Leste da Europa, as anedotas eram uma forma de vida, no sentido mais literal: uma forma de suportar a realidade pela desconstrução do absurdo em que homens viviam. Conta Ben Lewis, em número recente da britânica “Prospect”, que nos últimos três anos do regime Ceausescu, na Romênia, as piadas duplicaram. Parece que é uma lei: à medida que o regime se torna mais falso e desumano, aumenta o desespero. E o grande humor alimenta-se diretamente do desespero.

Mas não apenas no Leste da Europa: o cineasta e escritor Rudolph Herzog resolveu publicar recentemente um livro onde recolhe as piadas que também circulavam na Alemanha nazista. Piadas de procedência judaica, na grande maioria. Como esta:

Adolf Hitler visita um asilo de loucos. Os pacientes fazem a saudação: braço estendido, “Heil Hitler!” na boca. Um dos presentes, porém, parece relutante em levantar o braço (e a voz). O velho Adolfo aproxima-se do homem e grita:

- Por que motivo o senhor se recusa a fazer a saudação?

O homem responde:

- Mein Führer, eu sou o enfermeiro, não sou demente como os outros.

João Pereira Coutinho, 31, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro “Avenida Paulista” (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

E-mail: jpcoutinho.br@jpcoutinho.com

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