
Numa entrevista concedida há uma semana, exactamente uma semana após a controversa subida de juros de 4% para 4,25%, Jean Claude Trichet, o presidente do BCE, diz que está preocupado com “a indexação dos salários à inflação”, o que pode criar uma “espiral salarial, que é negativa para a criação de emprego.
Em entrevista concedida ao Jornal de Negócios, o presidente do BCE explica a sua decisão e avisa que num contexto de forte incerteza, o conselho de governadores “fará o necessário para entregar estabilidade de preços no médio prazo e por ser credível ao fazê-lo, uma vez que isto é essencial para ancorar as expectativas de inflação”.
A situação de países como Portugal, a Espanha ou a Irlanda, que são os que mais sofrem com este endurecimento da política monetária, acabam por pesar pouco nas decisões. Trichet explica porquê.
Um dos desafios com que o BCE tem de lidar é com os ciclos diferentes nos países do euro. O que pode dizer aos países como a Irlanda, Espanha e Portugal que estão numa situação difícil e para quem as subidas de juro são dolorosas?
O BCE tem de se preocupar com o interesse superior da Zona Euro. A minha mensagem aos concidadãos é a de que partilham um destino comum com um continente tão populoso como os EUA. Quando olhamos para as diferenças de crescimento entre estados e países nos EUA e na Europa, temos aproximadamente o mesmo nível de diferenças. Um grande continente tem necessariamente que dar espaço às suas componentes. E a nossa política monetária tem de ser óptima ao nível de toda a Zona Euro, exactamente como a Fed não olha para o interesse do Missouri, da Califórnia ou do Texas. Tendo dito isto, há numerosos aspectos das políticas económicas que estão sob a responsabilidade dos países: em particular as políticas orçamentais, as políticas estruturais e a vigilância da evolução dos custos unitários de trabalho.
Portugal, por exemplo, tem um nível de inflação muito baixo. Quando as taxas sobem, as pessoas olham para o BCE. Deviam antes olhar para o que os seus governos fizeram no passado para os deixar em melhor posição para lidar com uma politica monetária única?Em primeiro lugar, ao ancorarmos as expectativas de inflação, o BCE está a preservar um ambiente financeiro que é favorável para um crescimento sustentável e para a criação de emprego. Isto porque, se tudo o resto permanecer igual, então expectativas de inflação em linha com a nossa definição (abaixo mas perto de 2%) significam taxas de juro de médio e longo prazo mais baixas. Em segundo lugar, os governos, os parlamentos e os parceiros sociais têm responsabilidades importantes.
Os bancos centrais, incluindo o BCE, são responsáveis por um grande crescimento da massa monetária no passado recente. Até que ponto são culpados pela actual inflação?Na Zona Euro certamente não aliviámos a pressão! Confio que o BCE esteve bem e tomou as decisões correctas. Permitam-me um exemplo: quando decidimos o aumento de taxa em Dezembro de 2005 [então nos 2%], fomos aconselhados pelo FMI para não o fazermos, pela OCDE também, assim como por um grande número de vozes eloquentes. Fizemo-lo na mesma, porque a nossa análise monetária em particular dava indicações fortes de que o deveríamos fazer. Hoje ninguém sugere que estivemos mal na nossa análise e decisão, pelo contrário. Nós somos responsáveis pela estabilidade de preços na Zona Euro no médio prazo e temos conseguido fazê-lo desde o início do euro. Sabemos o sentimento dos nossos concidadãos. O último inquérito sugere que a inflação é agora a principal preocupação dos cidadãos europeus. E eles sabem que o banco não é responsável pelos aumentos no custo do petróleo, das matérias primas ou da alimentação. Os nossos 320 milhões de concidadãos sabem que podem contar connosco para entregar estabilidade de preços a médio prazo e nós pensamos particularmente nos mais pobres e mais vulneráveis que são os que menos podem fazer para se defender da inflação crescente.
Porque é que a última declaração, o Conselho de Governadores colocou tanta ênfase na necessidade de suprimir efeitos de segunda ordem?A nossa mensagem é a de que devemos evitar efeitos de segunda ordem. Nós não podemos alterar hoje os preços das matérias primas e do petróleo. Mas devemos evitar que os preços que dependem de nós – por exemplo os preços dos serviços e dos salários – aumentem de forma anormal como se o actual nível de inflação fosse perdurar . Nós estamos cá para dizer às famílias e às empresas, assim como a todos os parceiros sociais, que vamos manter a estabilidade de preços, abaixo, mas perto de 2%, no médio prazo e que eles devem levar isso em consideração quando fixam os seus preços.
O que quer dizer por efeitos de segunda ordem?
São os aumentos de preços que sejam anormalmente baseados na hipótese errada de que a inflação irá permanecer tão alta como está hoje nos anos que aí vêm. Os que fixam preços e os parceiros sociais devem considerar que vamos regressar à estabilidade de preços, em linha com a nossa definição – nos próximos 18 meses.
Como é que a política de taxas de juro do BCE pode controlar as expectativas de inflação?Os economistas dir-lhe-ão que os bancos centrais garantem a estabilidade de preços através de diferentes canais de transmissão da política monetária: o de taxa de juro, o de crédito, o de assunção de riscos. Eu evidencio em particular a importância decisiva da credibilidade do banco central. Se o banco central é credível na gestão da política monetária, então os nossos concidadãos, assim como as empresas, confiarão que podem contar com estabilidade de preços nos anos futuros. O BCE é a âncora credível dessa estabilidade e confiança perante 320 milhões de cidadãos da Zona Euro. Nós estamos fortemente determinados a preservar e a reforçar a confiança: é o nosso activo mais precioso. E é bom para todos, famílias, empresas e governos: as taxas de mercado a cinco, dez e vinte anos estão baixas porque o BCE é credível e inspira confiança. Alguns governos estão a pedir emprestado a 50 anos com uma taxa de juro inferior a 5%.
A inflação subjacente [sem energia e bens alimentares] na Zona Euro está muito abaixo da total. Porque razão devemos estar tão preocupados?
Não consideramos a inflação subjacente um bom indicador da inflação futura. Permitam-me um exemplo dos sinais que justificaram a nossas preocupações. Os custos unitários do trabalho são um indicador importante da inflação futura, porque são o maior custo na economia da Zona Euro. Nos últimos anos tivemos aumentos reais de 1% em 2005, de 0,9% em 2006, de 1,5% em 2007 e de 2,4% no primeiro trimestre deste ano. Quando tentamos perceber o que explica esta evolução, temos que cerca de 50% se deve a aumentos nos salários e os outros 50% a uma redução da produtividade do trabalho. O resultado final é que nos dois últimos anos observámos um aumento acentuado dos custos unitários do trabalho.
Os efeitos de segunda ordem já estão a funcionar?
A tendência recente nos custos unitários de trabalho é uma indicação que temos de considerar e por isso são riscos que temos de contrariar. Não diria que os efeitos de segunda ordem são um fenómeno generalizado no presente, mas vemos sinais que temos de levar a sério. Desse ponto de vista estou preocupado com os esquemas de indexação de salários à inflação. Eles envolvem um risco de uma espiral salarial, que é negativa para a criação de empregos.
Há o risco da inflação na Zona Euro exceder os 5%? O risco de um abrandamento económico acentuado é preferível a uma espiral inflacionista?
Nós não temos dois objectivos, perseguimos um objectivo, que é a estabilidade de preços no médio prazo. Ela é pré-condição para o crescimento sustentado e a criação de emprego. Não existe contradição entre estabilidade de preços e crescimento sustentado. Desde a criação do euro em 1999, tivemos ambos. Nos primeiros nove anos, a inflação média anual na Zona Euro foi de 2,1%. Nesse mesmo período foram criados 15,7 milhões de empregos, mais que nos nove anos precedentes e um milhão mais que os criados nos EUA. O desemprego na Zona Euro no ano passado foi o mais baixo de 25 anos. O BCE sente-se responsável por qualquer outro objectivo que a estabilidade de preços?Nós temos um objectivo primário, que é manter a estabilidade de preços. É uma pré-condição que contribui para o cumprimento dos objectivos da União Europeia.
Para garantir a estabilidade de preços, o BCE aumentará consistentemente as taxas de juro para quebrar as expectativas de inflação?Já disse o que tinha a dizer sobre esse tema.
Deve o BCE, na sua determinação de estabilidade de preços, estar preocupado com a inflação nos activos assim como nos preços de consumo? Essa é uma questão importante para todos os bancos centrais. Nós não pensamos que seja possível ou aconselhável ter uma definição de estabilidade de preços que inclua num único indicador não só os preços no consumo, mas também os preços dos activos. Tendo dito isto, através de um efeito “riqueza”, os preços dos activos têm influência na procura e logo nos preços de consumo futuros. Além disso, no caso do BCE, temos um enquadramento de política monetária baseada em dois pilares: o económico e o monetário. Quando analisamos a situação monetária também olhamos com atenção para o crescimento do crédito que pode alimentar a inflação nos activos. * entrevista conjunta com o Frankfurter Allgemeine Zeitung , o The Irish Times e o Le Figaro
“Estou preocupado com os esquemas de indexação dos salários à inflação”
Numa entrevista concedida há uma semana, exactamente uma semana após a controversa subida de juros de 4% para 4,25%, Jean Claude Trichet, o presidente do BCE, diz que está preocupado com a indexação dos salários à inflação , o que pode criar uma espiral salarial, que é negativa para a criação de emprego.