sexta-feira, setembro 03, 2010

“Portugal arrisca uma sobre-reacção dos mercados”

Daniel Gros, director do Center for European Policy Studies, diz em entrevista ao Negócios que parece muito provável que Portugal tenha de subir impostos, pois apenas cortes na despesa não será suficiente para fazer o ajustamento necessário .
Rui Peres Jorge
rpjorge@negocios.pt

Daniel Gros, director do Center for European Policy Studies, diz em entrevista ao Negócios que parece “muito provável” que Portugal tenha de subir impostos, pois apenas cortes na despesa não será suficiente para fazer o “ajustamento necessário”.

O que acha do plano grego?
São medidas necessárias mas não suficientes. Não há volta a dar: os salários vão ter de baixar e não é só no sector público. Essa é a questão central. Há um problema de falta de poupança, especialmente em Portugal e na Grécia, o que significa que, estruturalmente, não têm capacidade de gerar investimento líquido de fontes internas. Para colocar Portugal e Grécia numa trajectória correcta, será preciso um ajustamento de toda a economia, com um corte no consumo de cerca de 10% do PIB.

Não teme que a adopção dessas medidas leve as pessoas para as ruas?
Há esse risco, sim. E é por isso que os mercados estão tão nervosos e cépticos em relação à Grécia. Essa é outra das grandes diferenças com a Irlanda. Os irlandeses apresentaram um plano agressivo de cortes e, um ano depois, vemos a economia a recuperar.

Concorda com a avaliação de Joaquin Almunia de que o plano grego é “ambicioso mas atingível”?
É um pequeno passo na direcção certa, mas não chegará.

Estamos portanto apenas a adiar um problema? Há o risco efectivo de uma “falência” da Grécia?
O risco existe. E é por isso que a Comissão Europeia devia preparar-se para o pior.

Pisani Ferry e André Sapir [economistas do think-tank Bruegel] defendem um sistema de resgate da Grécia gerido pelo FMI. Concorda?
Não. Não vejo o que é que o FMI possa fazer que a Comissão não possa. O que a Europa tem que fazer é preparar-se para um falhanço dos políticos na Grécia.

Para os dois economistas do Brugel, o FMI está menos condicionado politicamente. Numa situação de contestação, seria mais fácil ao FMI defender políticas de austeridade do que garantir um acordo nesse sentido de todos os líderes da Zona Euro (alguns deles em risco de se verem na mesma posição)?
Não concordo de todo. O FMI tem-se mostrado muito fraco. Não conseguiu, por exemplo, evitar a crise na Argentina. Além disso, os EUA têm um peso muito forte no Fundo, condicionando as suas políticas. Veja, por exemplo, que nunca deixaram cair uma economia que tivesse o dólar como moeda.

A criação de um fundo de resgate para a Grécia poderia criar um problema de “risco moral” na Europa, incentivando os países menos disciplinados a continuarem assim?
Sim. Por isso, o que defendo é a criação, não de fundo para evitar a falência, que é uma responsabilidade do próprio país, mas, sim, de um fundo para gerir as suas consequências, de forma a evitar o efeito sistémico nos restantes países.

Almunia disse, ontem, que Portugal teria de fazer mais pela consolidação. Os mercados reagiram e as “yields” dispararam. Qual é o risco de Portugal enfrentar a pressão extrema dos mercados financeiros?
Uma coisa que vimos com esta crise é que, por vezes, os mercados se mantêm sem sinalizar o risco durante muito tempo e, depois, de um momento para o outro, acordam e sobre-reagem. Portugal está em risco.

O Governo tem resistido a um cenário de aumento de impostos, consolidando apenas pela via da despesa. Acha viável?
Parece-me muito provável que tenha de subir impostos. Se fizer os cortes só na despesa, muito bem, mas não me parece que chegue para o ajustamento necessário.

A Zona Euro e o euro estão em risco? Os bancos centrais do mundo estão a reduzir as reservas em euros…
Não creio que esta crise implique o fim da Zona Euro. Quanto à redução de exposição, se ela significar uma desvalorização do euro, até pode ser bom para a economia.

Deixe um Comentário

This site is using OpenAvatar based on